Será mesmo que o aumento da produção de biocombustíveis vai inflacionar os preços de alimentos ao consumidor? Parece até boato de quem está com inveja da riqueza que está sendo gerada pelo setor, não é mesmo?
Os bons preços garantidos pela demanda aquecida e a política de isenção fiscal fez com que muitos produtores de feijão substituíssem suas culturas pelo plantio de cana-de-açúcar, para a produção de biodiesel e etanol. Em verdade, de 2006 para 2007, a área plantada de feijão recuou 70%, com conseqüências diretas no preço do alimento. O quilo do feijão passou de R$ 2 para R$ 7, uma encarecimento de 250%. |
Em todo caso, a pergunta é oportuna, visto que o aumento do preço de alimentos básicos (como o açúcar, o óleo de soja, verduras e laticínios) pode ser desastroso para a população pobre do planeta.
Nós, consumidores, agora temos que dividir parte destes alimentos com um consumidor voraz: a indústria de biocombustíveis. A demanda por produtos que são usados tanto em biocombustíveis como em alimentos cresceu, e vai crescer cada vez mais. E, segundo a lei da oferta e procura (a mais inexorável das leis do capitalismo), os preços podem subir tanto para um mercado quanto para o outro. Se houver mais demanda de um lado, haverá um preço do outro.
Como produzir biocombustíveis virou febre no Brasil, os agricultores têm substituído suas culturas tradicionais (como mamão, laranja, cenoura, batata e outras), para plantar aquelas utilizadas na produção de etanol e biodiesel. Por enquanto, de uma maneira pequena em relação a área plantada. A oferta destes alimentos, portanto, tende a diminuir, enquanto a demanda continuará a mesma. O resultado é o aumento dos preços de alimentos ao consumidor.
Parte da alimentação dos bovinos, suínos e aves é composta por insumos utilizados na produção de biocombustíveis. Ou seja, pode ficar mais caro alimentar estes animais. E este aumento de custo será repassado aos consumidores - carnes e laticínios podem ficar mais caros.
Os reflexos do aumento da produção de biocombustíveis nos EUA ficaram conhecidos no México como “efeito tortilla”. A tortilla, para quem não sabe, é uma iguaria mexicana feita de milho, semelhante a uma pequena panqueca. Como os EUA estão utilizando cada vez mais o milho plantado em seus campos para a produção de etanol, a parcela destinada para a exportação tem diminuído ano após ano. E detalhe: os EUA são o principal fornecedor de milho do México. Nos últimos dois anos o preço da tortilla subiu nada menos do que 200% em território mexicano. Atualmente, o etanol abocanha um quinto da produção de milho nos EUA, de acordo com pesquisa feita pela Worldwatch Institute. E a tendência é crescer cada vez mais. |
Ao longo de 2006, o preço internacional do milho (matéria-prima não só da tortilla, mas do etanol nos EUA) subiu 55%. A soja, cuja produção foi reduzida nos EUA para abrir espaço para o milho, teve alta de 13%, segundo o International Food Policy Research Institute (IFPRI).
Na economia brasileira, de 2006 a 2007, alguns alimentos apresentaram elevação dos preços acima do esperado, de acordo com estatísticas da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O açúcar refinado, por exemplo, ficou 15,74% mais caro no varejo no período. No período do Pró-álcool, a primeira tentativa de usar etanol nos veículos brasileiros ocorrida nos anos 80, houve muita especulação e os usineiros, às vezes, vendiam para os produtores do etanol e, às vezes, para os produtores de açúcar.
Os especialistas já não ignoram mais a existência de uma correlação entre preços de alimentos e aumento da demanda de biocombustíveis. A constatação veio por meio do informe Perspectivas Agrícolas 2007-2016, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), publicado em setembro de 2007.
De acordo com o relatório, a demanda por biocombustíveis em nível mundial vai duplicar em 10 anos. Do lado da oferta, estima-se que até 2016 a União Européia (UE) irá produzir 21 milhões de toneladas de biocombustíveis, ante aos atuais 10 milhões; os EUA irão dobrar sua produção e o Brasil, por sua vez, irá saltar de 21 para 44 bilhões de litros produzidos anualmente. A China, ainda segundo a OCDE, irá expandir sua produção de etanol em cerca de 3,8 bilhões de litros por ano.
Será mesmo que, como todo este movimento de mercado, os preços dos alimentos não serão afetados?