Capítulo 11

Leis estaduais norte-americanas
Além das leis federais de falência, cada estado americano tem suas regras para lidar com falências dentro do estado. Em grande parte, a diferença está nos limites de renda e dívida que os devedores devem atingir para poder ser enquadrados em cada tipo de falência. Há também diferenças nos prazos para os planos de reorganização, da renda sujeita à liquidação, ativos isentos e outros detalhes. No passado, estas diferenças levavam os devedores (principalmente as empresas) a "pechinchar" até encontrar o estado com as melhores condições. A Lei de Proteção ao Consumidor e Prevenção contra Falência Indevida de 2005 estipula que qualquer pessoa que for pedir falência em um estado tenha morado nele pelo menos durante os dois anos anteriores ao pedido.

As empresas optam pela concordata porque suas receitas de longo prazo serão maiores do que o valor de liquidação dos ativos. Assim, os credores podem conseguir mais dinheiro de volta se permitirem que a empresa devedora seja reorganizada e que ela elabore um plano de pagamento. A empresa então se torna uma devedora em posse, mantendo o controle de seus ativos e dando continuidade às suas operações regulares. Neste caso, geralmente um interventor não é necessário.

Uma empresa que pede concordata deve revelar todos seus ativos e fazer uma lista de todas as dívidas para as quais está pedindo proteção. Este é o direito do credor de questionar o devedor, parte fundamental da lei de falências. Em casos que envolvem milhões ou bilhões, esta etapa pode ser extremamente complexa. Os credores também fazem reuniões com o devedor.

Se a justiça descobrir que houve fraude ou má administração grave por parte do devedor, pode nomear um interventor, que vai assumir o controle das operações do devedor durante o processo. Os negócios continuam funcionando normalmente, mas o dono não fica mais no controle. O interventor nomeado para um caso específico de falência nem sempre é o "Interventor dos Estados Unidos" (US Trustee). Como os tribunais federais de falência são responsáveis pelos processos, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos nomeia um interventor para cada distrito. O interventor dos Estados Unidos é como um cão de guarda nos casos de falência e pode ser também o interventor em um processo.

Enquanto estiver em concordata, a empresa pode somente fazer as vendas e compras regulares que são parte de suas operações comerciais padrão. Por exemplo, não pode comprar outra empresa, nem vender uma divisão da companhia, nem vender um equipamento ou bem importante sem a aprovação da justiça. Também não pode passar por uma grande expansão.

Em todos os processos de concordata, um comitê de credores representa a maioria dos credores quirografários (que não têm preferência e são pagos após todos os outros credores). Casos maiores podem ter vários comitês de credores, cada um representando grupos e facções diferentes de credores. Acionistas também podem formar um comitê.

A partir daí, o devedor formula um plano para reorganizar seus débitos. Pode ser um plano simples. Mas em falências maiores, as empresas podem tomar várias medidas para reorganizar a dívida. Podem oferecer ações para alguns credores. Um varejista pode ter que fechar lojas, dispensar funcionários ou renegociar contratos com sindicatos. Uma das principais disposições da lei norte-americana de concordata permite que a empresa anule muitos contratos, inclusive contratos com sindicatos, com fornecedores e contratos de aluguel.

O devedor também pode "se esquivar" de certos pagamentos ou compras que aconteceram no período anterior à falência. Normalmente este período é de 90 dias, mas pagamentos ou doações a amigos, família ou membros da empresa têm o limite de um ano ou mais, dependendo do estado onde o pedido de falência foi feito. Alguns pagamentos podem ser estornados ao devedor e tornarem-se sujeitos aos termos do plano de reorganização. Isto evita que devedores manipulem seus ativos e dêem preferência a determinados credores.


Apesar de algumas grandes empresas terem pedido falência nos últimos anos, o número geral de falências corporativas nos Estados Unidos tem caído

Assim que o devedor apresenta seu plano de reorganização, os credores e acionistas fazem uma votação. Os acionistas geralmente têm baixa prioridade, e mesmo que votem contra o plano, a justiça pode ir adiante se os credores o aprovarem. Uma vez que o plano é aprovado pela justiça, a concordata é registrada e confirmada. A partir daí o devedor deve cumprir o plano e fazer os pagamentos devidos aos credores ou ao interventor, caso algum tenha sido nomeado.

É importante salientar que durante o período de reorganização, as ações da empresa não têm nenhum valor. Se a empresa sair da concordata e voltar a operar normalmente, as ações podem aumentar seu valor, mas no início vão valer provavelmente muito menos do que o valor inicial de compra. Detentores de títulos às vezes conseguem receber uma fração do valor dos mesmos como parte da reorganização.

Se um devedor violar os termos do plano, há várias conseqüências em potencial. Um interventor pode ser nomeado. Se ficar claro que a empresa não será capaz de operar de forma lucrativa e concluir o plano de pagamento, a concordata será convertida em liquidação. Isto é uma sentença de morte para a empresa.

Ninguém vai para a cadeia por ter dívidas. É fácil passar despercebido quando muitos processos grandes de falência corporativa são resultado de crimes financeiros cometidos por empresários ou contadores. Fraude financeira pode levar uma empresa à falência, e os empresários podem ser processados, mas a falência em si não é crime.

Origens da falência
No início, a falência era um estado involuntário - as pessoas que eram forçadas a pedir falência eram consideradas criminosas e podiam ser mandadas para a cadeia ou mesmo ser executadas. Dizem que a palavra falência em inglês (bankruptcy) vem da tradição italiana de quebrar o balcão de trabalho do comerciante que não conseguia pagar suas dívidas. A expressão italiana para balcão quebrado, banca rotta, é a origem da palavra "bankruptcy" [ref] (em inglês).

No século XIX, as leis de falência dos Estados Unidos eram limitadas e geralmente aprovadas para ajudar o país durante períodos de dificuldade econômica. A Lei de Falências de 1898 foi a primeira lei moderna de falências e mais tarde foi aprimorada durante a Depressão com a Lei de Falências de 1933, a Lei de Falências de 1934 e a Lei Chandler de 1938. Às pessoas físicas foi dado o direito de terem suas dívidas perdoadas, e às empresas foi dada a oportunidade de se reorganizarem e pagar suas dívidas enquanto estivessem em processo de falência.

Com exceção das ferrovias, poucos pedidos de falências foram feitos depois da Segunda Guerra Mundial. A Lei de Reforma da Falência de 1978 foi um marco na legislação norte-americana. Esta lei criou os capítulos sobre falência que temos hoje e expandiu os poderes e direitos tanto do consumidor quanto das empresas devedoras de pedir falência. Os pedidos aumentaram nas décadas seguintes causando apreensão quanto ao sistema de falências ser muito tolerante e ineficiente. Também criou uma fila de pedidos nos tribunais de falência, o que levou a uma pressão para que processos de empresas pequenas fossem "acelerados" e à criação de falências "pré-fabricadas" para ajudar a agilizar o processo e diminuir a quantidade de casos. Reformas também foram aprovadas para estimular mais pedidos de falência do Capítulo 13 ao invés do Capítulo 7.

As reformas aprovadas em 2005 são as últimas alterações feitas nestas leis, conforme a balança pende para o fortalecimento dos devedores ou para o dos credores. Mudanças no cenário político, na opinião pública e na situação econômica podem afetar as futuras leis de falência.

Para mais informações sobre falência, confira os links na próxima página.

A falência em outros países
Leis e posturas com relação à falência são diferentes fora dos Estados Unidos, mas os elementos básicos são geralmente os mesmos - os devedores podem ter suas dívidas legalmente perdoadas ou podem formular um plano de pagamento.

No Japão, as leis de falência corporativa são semelhantes às leis americanas. No entanto, houve uma época em que as falências eram extremamente raras no Japão. Empresas em dificuldade financeira preferiam lidar com suas dívidas de maneira confidencial, através de um empréstimo bancário ou da elaboração de seus próprios planos junto aos credores para o pagamento. A crise Asiática de 1990 forçou muitas empresas japonesas a pedir falência, uma vez que os próprios bancos estavam com sérios problemas financeiros.

As falências européias geralmente são chamadas de insolvência. Como parte da Lei de Proteção ao Consumidor e Prevenção contra Falência Indevida de 2005, os Estados Unidos adotaram um modelo de lei das Nações Unidas de insolvência transnacional, originalmente escrita em 1997. Pode ser que alguns países adotem este novo modelo de lei, que encoraja a cooperação entre os tribunais das nações envolvidas.

No Brasil, as regras para determinar a falência mudou em 2005 com a lei 11.011. Entre as novidades da lei, estão o fim da concordata e uma maior flexibilidade para a empresa se reorganizar.