Quais os tipos de madeira usados e como?

Autor: 
Marco Lentini

Os dados de mercado internacional de produtos florestais sugerem que as espécies florestais (chamadas por alguns de essências florestais) mais utilizadas no mundo são coníferas ou espécies de folhosas de clima temperado. Não existem bons dados globais de comércio de espécies madeireiras. Entretanto, uma idéia geral pode ser extraída de relatórios como o GFRA (Global Forest Resources Assessment), da FAO. Em sua última edição, em 2005, o relatório traz algumas das espécies florestais mais reportadas pelos 88 países participantes da pesquisa, que, provavelmente, são também as espécies mais comercializadas no mundo. Entre as cinco principais espécies enfatizadas nesse relatório, todas abundantes em países de clima temperado, três são coníferas. São espécies dos gêneros botânicos Pinus, Quercus (chamado no Brasil de carvalho), Picea, Abies e Betula.

No Brasil, conforme discutido anteriormente, a maior parte do mercado florestal é composto hoje por espécies exóticas de rápido crescimento, principalmente dos gêneros Pinus e Eucalyptus, matérias-primas para as indústrias de papel e celulose. Este é um fato curioso considerando que o próprio nome do país advém do nome de uma espécie arbórea nativa, o pau-brasil (Caesalpinia echinata), que era muito abundante nas florestas costeiras de Mata Atlântica no século 17. O pau-brasil se destacava por produzir uma resina que era aproveitada para a industrial têxtil, tingindo roupas com uma qualidade superior em comparação a outros produtos utilizados na época. Aliás, grande parte da história de colonização do país está relacionada ao uso – geralmente indiscriminado – de suas florestas. Com o início da era de uso do pau-brasil iniciou-se a destruição da Mata Atlântica brasileira com o estabelecimento de culturas como cana-de-açúcar e posteriormente o café. A cana era beneficiada em engenhos que, por sua vez, promoviam a destruição da floresta porque precisavam de lenha para produzir açúcar.

Na Amazônia, a exploração madeireira começou em florestas de estuário, próximas a foz do rio Amazonas, ainda no século 17. De forma geral, durante os primeiros séculos, a madeira era um produto de pouca importância em comparação à borracha, castanha do Pará e cacau. Na década de 1950, as primeiras empresas madeireiras de grande porte se instalaram na chamada várzea amazônica, área onde o regime de cheia dos rios da bacia deixam a área coberta de água em uma parte do ano, e iniciaram um novo ciclo de exploração madeireira, desta vez muito mais impactante às florestas. Este ciclo de exploração nas florestas de estuário visava poucas espécies, destacando-se a virola ou ucuúba da várzea (Virola surinamensis) e a andiroba (Carapa guianensis). A madeira de virola, leve e de fácil manuseio, era amplamente usada na indústria de embalagens, molduras e fabricação de lápis, entre outros. Devido à pressão crescente sobre a virola, o governo federal estabeleceu cotas máximas para sua exportação a partir da década de 1990. O SCM, ou Sistema de Contingenciamento de Madeira, inclui ainda espécies como o mogno, araucária e imbuia. Embora algumas espécies de várzea, como a virola, ainda sejam largamente exportadas nos dias de hoje, a maioria da madeira amazônica do estuário possui como destino usos de baixo valor agregado à matéria-prima, como o mercado de construção civil para moradias de famílias de baixa renda nas grandes cidades amazônicas, como Belém, Macapá, Manaus e Santarém.

A construção de estradas federais na Amazônia nas décadas de 1960-70 foi o fator que permitiu que a exploração madeireira se alastrasse através dos abundantes estoques de madeiras valiosas da terra firme amazônica, destacando-se o mogno (Swietenia macrophylla), o ipê (Tabebuia sp.), o cedro (Cedrela odorata), o freijó (Cordia sp.), a cerejeira (Torresia sp.), o cumaru (Dypterix sp.), o jatobá (Hymenaea courbaril), entre muitas outras. De fato, estudos estimam que atualmente mais de 350 espécies madeireiras sejam exploradas na Amazônia. Conforme vimos anteriormente, embora algumas espécies de alto valor, como as espécies citadas acima, sejam amplamente exportadas atualmente para pisos, deckings e a indústria de mobiliário no exterior, é para o mercado nacional que se destina a maior parte da madeira amazônica, conforme a tabela abaixo. Surpreendentemente, podemos ver que, com as crescentes restrições à exploração e exportação de mogno, cerca de 15% do valor dos produtos florestais exportados pela Amazônia em 2007 foi representado pelo ipê (Tabebuia sp.), uma madeira de altíssima densidade e ótima durabilidade natural que é muito usada para pisos, deckings e outros usos externos.

Valor dos produtos madeireiros das principais espécies
exportadas pela Amazônia em 2007.

Espécie/Tipo Nome científico Valor exportado (US$)
Ipê Tabebuia sp. 85.797.907,00
Cedro Cedrela sp. 13.145.080,00
Louro Sextonia sp. 5.509.522,00
Virola Virola surinamensis 2.105.990,00
Cerejeira Torresia sp. 295.554,00
Mogno Swietenia macrophylla 253.969,00
Coníferas - 145.850,00
Peroba Aspidosperma sp. 34.532,00
Angico Anadenanthera sp. 26.535,00
Cabreúva Myroxylon sp. 20.892,00
Pau-marfim Balfourodendron sp. 9.157,00
Outros - 466.737.362,00
Fonte: MDIC (2008)

Um estudo inédito realizado em 2001 no estado de São Paulo (ver Sobral e colaboradores, na página mais informações), individualmente o maior consumidor de madeira amazônica, demonstrou que a grande maioria da madeira consumida – 60% - era usada em usos de baixo valor agregado na construção civil, como estruturas de telhados de casas ou em andaimes e fôrmas de concreto. Entre as principais espécies comercializadas no estado, estavam a cupiúba (Goupia glabra), cedrinho (Erisma sp.), garapeira (Apuleia sp.) e cambará (Qualea sp.). Apenas 16% da madeira amazônica consumida em São Paulo se destinavam a produtos de maior valor agregado, como móveis e peças de decoração.

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