Pico do petróleo: os possíveis erros da teoria

Em 2006, a Cambridge Energy Research Associates (CERA) estimou que "a base mundial de recursos petroleiros restantes é de efetivamente 3,74 trilhões de barris - três vezes mais que a estimativa de 1,2 trilhão de barris defendida pelos proponentes da teoria do "pico de petróleo" [source: CERA]. A organização acrescentou que, em vez de chegar a um pico e cair, o suprimento de petróleo chegará a uma situação de "estabilidade ondulante", com pequenos picos, e isso bastará para atender às necessidades mundiais do produto por ainda muitas décadas.

Na opinião da CERA, que conta com a adesão de muitos dos céticos quanto à teoria do pico de petróleo, a teoria não passa disso - uma teoria - e mais: uma teoria que o grupo considera questionável. A CERA acredita que a estabilização do suprimento não ocorrerá antes de 2030 e que, quando a demanda ultrapassar o suprimento estacionário, outras formas de energia estarão suficientemente avançadas para compensar a lacuna.

De que maneira a CERA está desenvolvendo projeções assim otimistas para o petróleo? A organização acredita que se possa confiar em futuras descobertas e em exploração plena dos recursos já disponíveis.

Existem muitas fontes de petróleo cuja existência já conhecemos. No Ártico, campos de petróleo com reservas de até 118 bilhões de barris foram identificados nos anos 50. O oceano profundo pode abrigar bilhões de barris de petróleo ainda não localizados. E também há fontes menos convencionais. O Canadá abriga vastos campos de xisto betuminoso - uma rocha que libera petróleo quando aquecida - e outros campos foram descobertos nos Estados Unidos em 2005. E futuras descobertas de "supercampos" de petróleo em forma convencional podem estimular a produção mundial.

Oil field in Azerbaijan
Mladen Antonov/AFP/Getty Images
Campos de petróleo como este, no Azerbaijão, talvez ainda existam, desconhecidos, em outras partes do planeta
A Recuperação Expandida de Petróleo (EOR) também pode ajudar a localizar novas fontes de petróleo. A produção de petróleo em geral existe em três fases. A extração primária é a mais fácil, com o petróleo quase (e ocasionalmente) borbulhando na superfície, devido à pressão dos gases que o impelem. A imagem mais famosa quanto a isso talvez tenha sido a perpetuada no seriado de TV "A família Buscapé", quando Jed Clampett acidentalmente encontra petróleo em sua propriedade.

A extração primária em geral responde por cerca de 10% do petróleo em um depósito. A extração secundária pode obter mais 20% a 40% dos depósitos totais [source: Department of Energy]. Nesse processo, água ou gases são bombeados para o depósito a fim de restaurar a pressão do petróleo. Mas, depois que esses dois métodos de escavar petróleo se esgotam, resta ainda 50% do petróleo original, no depósito.

Depois dos dois primeiros estágios, as empresas de petróleo, em geral, suspendem a exploração do depósito e mantêm o petróleo restante como reserva. Por que não extrair tudo? A resposta tem motivos econômicos claros. A extração terciária é dispendiosa. Com o petróleo aos preços atuais, não seria economicamente sensato que as empresas explorassem esses recursos de difícil extração. O preço do petróleo ainda não atingiu um nível que permita a essas empresas lucrar o bastante com a prospecção de locais como o Ártico e as águas oceânicas profundas, ou investir tecnologia mais dispendiosa na recuperação expandida de petróleo.

Mas quando o petróleo de acesso fácil se esgotar, os preços subirão, já que haverá menos produto no mercado. Essa tendência já pode estar em curso. Em 2 de janeiro de 2008, o preço do barril de petróleo atingiu os US$ 100 pela primeira vez, uma situação sobre a qual muitos dos proponentes da teoria do pico de petróleo já haviam alertado. Esse é um dos possíveis problemas que o mundo terá de enfrentar caso o petróleo atinja um pico de produção ou se fontes alternativas de energia não forem adotadas de maneira mais ampla.

Leia mais sobre as potenciais crises que podem surgir na próxima seção.