Por que o dólar está tão alto?

Quando Dilma Rousseff foi eleita para o seu segundo mandato como presidente do Brasil, em outubro de 2014, o cidadão brasileiro precisava desembolsar pouco mais de R$ 2,40 para comprar um dólar americano. Cerca de dez meses depois, para realizar a mesma operação, tem que tirar da carteira mais de R$ 3,60. Alguns especialistas acreditam que o preço da moeda norte-americana possa ficar próximo de R$ 4 até o final de 2015.

A explicação para tal fenômeno é extremamente simples e se baseia em uma implacável lei do mercado. A da oferta e procura. Quanto mais pessoas saem em busca de um item, mais valorizado ele fica. Quanto menos unidades existem disponíveis desse produto, mais caro ele custará. Porém, quais são os motivos para tantas pessoas tentarem comprar dólares e em tão grande quantidade? Existem algumas razões que motivaram esse movimento.

1) Crise política

A razão número um é a crise política que se arrasta desde o final das eleições presidenciais de 2014 e não fez outra coisa a não ser se agravar. Dilma Rousseff foi a candidata mais votada tendo ao seu lado uma coligação que reunia uma série de partidos. Os dois principais eram o PT, que tem como maior líder o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PMDB, agremiação do vice-presidente da República, Michel Temer. O candidato da oposição foi Aécio Neves, ex-governador de Minas Gerais, que é senador pelo PSDB e transformou-se na principal voz no combate ao governo federal.

Dilma foi eleita prometendo manter as conquistas sociais obtidas nos primeiros três mandatos do PT, oito anos no comando de Lula e quatro sob sua direção. Porém, logo que as urnas foram fechadas, anunciou medidas no sentido contrário, justamente as mesmas que eram apresentadas pela oposição. Propôs cortes nos investimentos, que atingiam inclusive programas que beneficiavam a população que mais apoio deu ao governo e praticamente assegurou sua vitória eleitoral.

Isso fez com que Dilma começasse a perder o apoio que tinha junto à população e também no PT. Apesar de a política aplicada desde então ser mais próxima à proposta pelo PSDB, não atraiu o apoio desse partido, deixando a presidente enfraquecida no governo tendo o PMDB como sua base principal.

O início da instabilidade política levou ao aumento da procura pela moeda estrangeira no final do ano passado. Essa é uma tendência natural do mercado, pois quando existe transição de governo sempre há o temor de novas medidas econômicas e a posse de moedas como o dólar é uma espécie de rede de segurança.

A nomeação de Joaquim Levy como ministro da Fazenda, um nome agradável ao mercado financeiro, evitou uma alta ainda maior. Foi a mensagem de que nenhum contrato seria quebrado. E isso realmente aconteceu.

A crise política, todavia, se agravou quando a presidente usou no começo de 2015 a força do governo para tentar eleger um deputado do PT (Arlindo Chinaglia) para o comando do Congresso em detrimento de Eduardo Cunha (PMDB). Acabou perdendo e viu um inimigo se instalar no cargo.

Houve uma tentativa de contemporização no início, mas o relacionamento se deteriorou e gerou seguidos conflitos como passar do tempo. Inclusive com uma série de pedidos para que Dilma Rousseff renunciasse, o que faria com que Temer, do PMDB de Cunha, assumisse a presidência. E com o aumento da instabilidade, comprar dólares virou uma opção diante da possibilidade de uma ruptura institucional. O que fez aumentar o preço da moeda norte-americana.

2) Questões jurídicas

Tão logo as eleições foram encerradas, o principal partido de oposição recorreu dos resultados alegando que a candidata vencedora abusou do potencial econômico para manter-se no posto. Tal recurso normalmente não prosperaria caso o governo federal estivesse fortalecido. Porém, em um cenário de crise política, foi avante e criou uma nova fonte de instabilidade, dessa vez no campo legal.

Esse procedimento, ainda em andamento, pode gerar um processo que terminaria cassando a chapa Dilma/Temer e promulgaria o segundo colocado na eleição, Aécio Neves, como vencedor nas eleições. Todavia, essa não é uma interpretação integralmente aceita. Alguns juristas acham que se a chapa vencedora for impugnada uma nova eleição deve ser convocada. Ou seja, todo esse processo causa mais instabilidade.

Ainda que nesse caso as chances de o resultado da eleição ser anulado serem pequenas, isso também atua como agente paralelo na crise política e auxilia no clima de instabilidade que gera o aumento da procura por dólares, aumentado o preço da moeda norte-americana.

3) Atuação policial

Membros do governo e dos partidos que servem como suporte à presidente Dilma Rousseff cada vez mais surgem como suspeitos ou indiciados em investigações policiais, especialmente na Lava Jato. Essa operação realizada em conjunto pela Polícia Federal e a Justiça do Paraná descobriu um sistema de superfaturamento de pagamentos na Petrobras que era utilizado para financiar campanhas eleitoras e enriquecer políticos e funcionários da empresa estatal.

Em nenhum momento a presidente teve seu nome ou de auxiliares diretos envolvidos, mas figuras importantes do PT já foram arroladas no processo. A cada vez que uma figura de escalão mais alto era descoberta, a procura por dólares também aumentava.

4) Pedidos de impedimento

A reunião dos três fatores anteriores levou o governo aos mais baixos índices nas pesquisas de opinião pública. Com isso, os opositores começaram a protocolar uma série de pedidos de impedimento visando retirar Dilma Rousseff da presidência, embora nenhuma evidência de ilegalidades cometidas por ela tenha sido revelada.

Na prática, todavia, o processo de impedimento dispensa essas provas. Ele é baseado muito mais em circunstâncias políticas e depende do apoio político que o chefe do poder Executivo tem no Legislativo. E, quando um procedimento desse tipo começa, nunca se sabe como termina. Até o momento, Dilma tem tido força suficiente para barrar todas as tentativas. Se alguma delas prosperar, no entanto, a disparada do valor do dólar seria ainda maior.

5) Crise econômica

As quatro primeiras razões mostraram como as circunstâncias afetaram uma das pontas da lei da oferta e procura. A crise política e a instabilidade fizeram com que as pessoas passassem a buscar os dólares como forma de terem um investimento protegido em caso de o cenário político descambar para situações que fogem da normalidade.

A crise econômica faz com que o preço da moeda suba na outra ponta, o da queda da oferta. Os indicadores do setor produtivo nacional já não vinham se mostrando muito saudáveis desde o ano passado, especialmente no segundo semestre. E pioraram sensivelmente em 2015, quando o país oficialmente entrou no que se chama de recessão técnica, ou seja, teve dois trimestres consecutivos em que o PIB (Produto Interno Bruto) foi negativo.

As empresas aumentaram o número de demissões de funcionários. Provocando, como efeito quase imediato, a diminuição do consumo e tornando o mercado brasileiro menos atrativo para os investimentos estrangeiros. Isso, na prática, significa entrada menor de dólares. Menos dólares, no mercado, preço mais alto.

6) Especulação

Por mais que existam motivos da economia real para o aumento do preço do dólar, não se pode esquecer de uma razão muito forte para as oscilações no valor da moeda norte-americana. São os grandes especuladores do mercado financeiro. Eles sabem que o governo brasileiro possui uma volumosa quantidade de dólares e usa esse montante para tentar evitar grandes flutuações, que são prejudiciais para as empresas importadoras, para os cidadãos que fazem compras no exterior e para entidades que possuem dívidas em dólar.

Por isso, através de manobras especulativas, forçam a subida do preço da moeda fazendo com que o governo abra seus cofres e coloque seus dólares à venda tentando, em uma queda de braço com o mercado, reduzir a cotação do dólar. Nessa briga, altos valores entram em jogo e o governo precisa saber medir até que pondo está disposto a ofertar a moeda norte-americana sem comprometer suas reservas.