O sofrimento da dura vida do sertanejo criou um arsenal artístico
importante da cultura brasileira, com destaque para a literatura. Não
foram poucos os escritores que se imortalizaram
descrevendo a realidade da caatinga. Rachel de Queiroz escreveu o
romance O Quinze, usando as informações da seca que sua família viveu
antes mesmo do seu nascimento. Graciliano Ramos primeiro escreveu um
conto, mostrando a morte agonizante do cachorro Baleia por causa da
seca. Baleia acabou se transformando em um dos personagens do clássico Vidas Secas. João Cabral de Melo Neto cantou as injustiças e o
abandono sofridos pelo sertanejo em Morte e Vida Severina. O primeiro
importante livro-reportagem brasileiro e um clássico da literatura, Os
Sertões, foi escrito pelo jornalista Euclides da Cunha, narrando as
ações militares contra os seguidores de beato Antônio Conselheiro, em
Canudos. E a lista de escritores que mostraram essa realidade não pára
por aí. Há também Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna
etc. |
Além desses dados, é possível afirmar que a caatinga nordestina é a responsável pelo grande número de migrantes que vão atrás de emprego ou mesmo subemprego nas grandes capitais brasileiras ou em pólos econômicos expressivos.
Medidas mitigadoras
Soluções para o crônico problema da seca nordestina está na agenda política brasileira há anos. Na seca de 1877, por exemplo, Dom Pedro 2º prometeu gastar até o “último centavo da Coroa” para mitigar os efeitos do clima na região. Em 1909, foi criada a Inspetoria de Obras Contra as Secas, que procurou e perfurou poços, construiu barragens e açudes para serem usados pelo sertanejo nas suas plantações. Em 1946, a Constituição brasileira estabeleceu que 3% do orçamento brasileiro deveria ser alocado para solucionar o problema da seca. Em 1959, foi criada a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, a Sudene, órgão que vem de encontro aos preceitos de descentralização econômica, defendidos pelo economista Celso Furtado. Depois de várias denúncias de corrupção, o órgão foi extinto e reaberto como Adene, Agência de Desenvolvimento do Nordeste. A intenção do órgão foi fortalecer a economia regional. Em 1970, surgiu o Programa de Redistribuição de Terra e de Estímulo à Agroindústria do Norte e Nordeste (Proterra), com o objetivo de promover uma reforma agrária na região. A esse breve relato de tentativas dos sucessivos governos de estabelecer políticas que poderiam ajudar ao nordestino, inclui-se a transposição do São Francisco, idéia que já havia surgido na época do império, tomou contornos mais definidos a partir de 1980, com vários projetos elaborados e reelaborados durante esses anos. Junto com essas tentativas de políticas estruturais para a seca, medidas emergenciais acabaram sendo feitas como a criação da bolsa-escola e depois da bolsa-família.
A história das várias tentativas de políticas públicas voltadas para as vítimas da seca tem um lado negro. Conhecida como indústria da seca, há uma prática perniciosa de políticos (herdeiros do legado autoritário dos antigos coronéis nordestinos) de desviar recursos públicos que deveriam ser usados para ajudar a levar água para quem precisa.